Ocupando atualmente os primeiros lugares das listas brasileiras dos livros mais vendidos, a trilogia “Cinquenta Tons” (Intrínseca) é um sucesso inegável. Além divertir muitas mulheres com a história do casal Christian Grey e Anastasia Steele, a série erótica atiçou na cabeça das leitoras a vontade de experimentar a fantasia da dominação e da submissão, o sadomasoquismo.
O universo fetichista de “Cinquenta Tons de Cinza” é povoado de itens eróticos, como a máscara que deixa as mulheres mais sedutoras . Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena
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De acordo com especialistas em sexualidade, o fetiche que esquenta a trama da trilogia pode mesmo apimentar as relações dos casais. “De maneira geral, ler sobre erotismo costuma provocar as fantasias de quem lê”, esclarece a sexóloga Maria Cristina Romualdo Galati, do Instituto Kaplan de São Paulo. “Como 'Cinquenta Tons' envolve o sexo com uso de acessórios associados ao sadomasoquismo, como algemas e chicotes, muitos pessoas acabam inserindo esses itens nas suas relações”.
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A sexóloga acredita que o livro faz sucesso com um grupo grande e heterogêneo de mulheres porque mostra uma versão abrandada e fantasiosa da prática de dominação e submissão. “'Cinquenta Tons' é um conto de fadas moderno, que traz em suas páginas umsadomasoquismo light”, opina a especialista.
A psicóloga Luciana Keller, dona da boutique erótica Constantine, em São Paulo, diz que essa versão adocicada da prática é de fato a que mais faz sucesso entre as suas clientes. “A maior parte das mulheres encara tudo como um fetiche. Os acessórios que elas compram, inclusive, são mais para brincar do que para provocar dor de verdade nela e no parceiro. Elas rejeitam o sadomasoquismo mais hard”, diz.
De olho nessa preferência pelo sadomasoquismo light, Luciana suavizou um dos acessórios mais emblemáticos da prática, as algemas. Em vez do frio metal, o acessório tem agora uma versão feita de seda e rendas. “As mulheres gostam porque é bem feminino e nada agressivo”, opina a empresária e psicóloga. Da mesma forma, os chicotes têm suas pontas cobertas de material aveludado para não machucar.
Sexo baunilha
Independente dos acessórios e figurinos especiais, a essência do sadomasoquismo guarda semelhanças com ‘o sexo baunilha’ – termo usado pelos praticantes de SM para descrever as relações comuns, não sadomasoquistas.
“Toda transa envolve, mesmo de maneira sutil, a dominação de um para a submissão de outro. Faz parte do jogo erótico”, pontua Maria Cristina.
Para a sexóloga e colunista do DelasFátima Protti, a fantasia de ser dominada é muita poderosa para as mulheres, que se sentem sexualmente irresistíveis e libertas de certas amarras morais e religiosas.
“Durante as brincadeiras, o imprevisível e a falta de controle por estar presa com algemas ou vendada gera medo, mas também muita excitação”, diz.
Inverter a situação, dominando o parceiro com o corpo e a própria sensualidade, também agrada as mulheres, segundo Fátima. “A fantasia é uma maneira de viver algo diferente. Criamos outra identidade para viver o que é erótico, mas proibido na realidade. Brincando de faz de conta realizamos os desejos e aliviamos as tensões”, analisa a sexóloga.
Calma e cuidados
Mesmo com a excitação e a empolgação provocadas pelos livros, é melhor ir com calma na hora de realizar as fantasias, que não serão colocadas em prática somente por você. “O parceiro pode tomar um susto se a parceira, de uma hora para outra, aparecer vestida de dominatrix e paramentada com chicotes, palmatórias e algemas”, brinca Maria Cristina, ao mesmo tempo em que aconselha as mulheres a tentar uma abordagem mais delicada com os maridos ou namorados.
Fátima sugere uma maneira sútil de introduzir essa fantasia na rotina sexual do casal. “Crie brincadeiras com as vendas, e depois tente as amarras. Nesse crescente vocês ficarão à vontade para comunicar suas fantasias e limitações”, propõe a sexóloga. Vale lembrar que um dos momentos mais marcantes do primeiro livro “Cinquenta Tons” se dá quando Anastasia tem suas mãos amarradas com a famosa gravata cinza de Christian.
À medida em que começa a realizar o fetiche relacionado ao sadomasoquismo, é importante que o casal converse e estabeleça os limites de cada um na prática. “A fantasia deve ser prazerosa para ambas as partes, sempre preservando a integridade física dos dois”, finaliza Maria Cristina.